21 de julio de 2009

Dialogos cruzados entre Albano Pepe y Warat

Desde sempre os textos waratianos me emocionam, notadamente aqueles que acontecem aos pedaços, fragmentados, partidos, pequenas felpas, farpas sutis de arbustos cortados ao léu. Ao ler/reler sirenas, lobas y poetas, senti pequenas farpas penetrando na minha pele, incômodas, doídas/doidas. Remetem-me a Osho, que diz: “o segredo para não estar saciado nem frustrado, é não esperar nada. Viver até a morte com os olhos bem abertos, plenos de uma surpresa adâmica” (tradução livre). Fico numa encruzilhada onde tem uma tabuleta que indica para o norte o hedonismo e para o sul o estoicismo. A via do hedonismo está repleta de fortes fragmentos waratianos. No entanto a via estóica traz consigo outro tipo de fragmentos me parece que requer o uso de lupas diferenciadas. Pergunto-me: por que Warat pinçou aquela felpa oshiana de raiz estóica? A frase remete a uma conduta imperturbável, tranqüila e serena, deixando apenas uma fresta, uma pequena fresta – a surpresa adâmica.
Continuo minha garimpagem dos fragmentos sutis. Ele fala do silêncio e da aprendizagem do amor como que para introduzir uma definição de amor: algo que sabemos fingir, porém sem entendê-lo como sentimento constitutivo. Um sentimento essencial, indispensável que, ao que parece, poucos alcançam, mas que muitos sabem mostrá-lo enquanto farsa, com teatralidade e ridicularia. Parece-me então que no amor não cabe a teatralidade, senão o silêncio da contemplação extasiada diante do sujeito amoroso sem dele nada esperar, tão somente mergulhando fundo naquele sentimento que nos envolve... até a morte.
Mais uma vez faço a colheita da narrativa waratiana, que diz: para aprender a sentir o amor é preciso entender uma contradição absurda. É necessário alcançar uma silenciosa serenidade para poder despregar uma loucura silenciosa e albergar a do ser amado. Precisamos aprender a sentir a fragrância do silêncio sereno e ao mesmo tempo louco (me refiro a loucura surrealista constitutiva do amor).Mais uma vez a encruzilhada, que parece não me permitir seguir uma outra via, ainda não indicada, mas que poderia dizer caso exista ou venha a existir: para algum lugar, ainda a ser inventado, o hedonismo-estóico. Movimento contraditório, mas não contrário, creio eu. Afirma indicações aparentemente excludentes, mas que não se negam simplesmente.
Será que isto tem a ver com o silêncio das sereias? Com as lobas e as sereias que poderiam nos iluminar diante da escuridão em que estamos mergulhados sem nem bem sabermos quem somos? Por que temos que nos conhecer? As lobas, diria Warat tentam retardar ao limite, a nossa perda de pureza, talvez da simplicidade selvagem e primitiva dos que são simplesmente filhos de Gaia. Mas não é o queriam Circe e as sereias com Ulisses e sua tripulação? Não deixá-los chegar em Ítaca,, lugar da razão civilizatória? Lembra-me a revolta dos marujos de Ulisses que depois de transformados em porcos voltaram ser humanos por exigência de Ulisses a Circe. Outra contradição ou não? Enquanto porcos, os marinheiros se diziam felizes, ao voltarem à condição humana. Em Circe e nas sereias não estaria um último apelo para felicidade daqueles que insistiam em serem humanos? É verdade, concordo com o Warat, por outros vieses, é claro; nem sabemos o que somos nem o que queremos. A aura do mundo mítico foi apagada, não mais nos ilumina e agora, queremos que seres míticos, as sereias e as lobas, iluminem nossos passos até nós mesmos? Mais uma contradição.
Albano, que quem sabe, um dia foi ou quis ser lobo.

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