15 de enero de 2009

Un aporte de Eduardo Rocha

Eu prefiro as folhas desidratadas

Por: Eduardo Gonçalves Rocha

A vida pode ser leve, mas também pode ser pesada. Talvez, seja sempre uma combinação promíscua e complementar do leve e com o pesado. Afinal, antes de tudo, ela é complexa.

Seria muito reducionismo esperar simplicidade da vida, mas, talvez, nosso grande desafio seja enfrentar sua complexidade com leveza. Vinícius de Moraes é encantador ao valorizar e reivindicar o prazer e o sofrer, a felicidade e a infelicidade. A ilusão e a exigência de uma vida uniforme, sem altos e baixos, torna o viver algo pesado e frustrante, típico da “geração prosac”, que não sofre, mas também não sente.

Não é apenas impossível, como indesejável repetirmos a cada momento: sou feliz, sou feliz, sou feliz. Pessoalmente, exijo algo além do costumeiro “ser feliz”. Quero chegar ao final da minha vida e poder dizer: “fui feliz, mas, acima de tudo, fui humano, pois sofri, sorri, vivi”.

Certa vez, uma garota (e que garota...) entregou-me uma folha de "pingo-de-ouro" e pediu para que eu guardasse na carteira, com a promessa de que a folha nunca perderia o encanto, desde que respeitada sua crescente fragilidade. Não acreditei, mas passados muitos meses a folha ainda está lá: seca, porém verde; bela, desde de que compreendida. Interessante essa lição: o eterno só pode existir desde que respeitadas suas novas feições. O que é isso senão a vida e suas complexas relações? O outro deve ser respeitado em suas fragilidades, em sua intimidade, enfim, a complexidade da vida deve ser assumida caso queira estabelecer uma relação duradoura pautada na alteridade, na valorização das singularidades.

Acho que demorei bastante tempo para compreender a proposta de Warat, não à toa ora ou outra ele me chamava de “apolínio”, “fama”, feudal. Hoje, concordo com ele. Afinal, algumas coisas são aprendidas somente com as experiências vividas, o que exige tempo. Essa não é uma das metas do Cabaré? Compartilhar experiências?
Acho que já compreendo um pouco melhor a proposta de Warat, e caso pudesse escolher uma metáfora que sintetizasse suas lições, sem dúvida, escolheria o exemplo daquelas folhas, que ainda guardo na carteira: a promessa de eternidade em uma folha desidratada. Realizável? Sustentável? Não importa...não importa...

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