13 de noviembre de 2012

Café


Café com Warat




Por: Vladimir de Carvalho Luz


Warat acalentava a ideia de abrir uma faculdade de direito em Curitiba. Havia uma criativa corruptela que já marcava o nome da Faculdade: LAW – Luis Alberto Warat. Sua logomarca era um pinguim que sugeriria uma ruptura de padrões. Warat achava que o problema do ensino jurídico era justamente a sua “pinguinização”, com a qual juristas se comportavam, se vestiam e pensavam todos iguais.

O projeto do curso era, como Warat, único. Arte com eixo básico. Locais fundamentais da escola: um circo e um café, e não salas de aulas. Ao lado das disciplinas obrigatórias, o mais importante era dança (para professores e alunos). Fui convidado para fazer parte do corpo docente deste inusitado projeto. Nem pestanejei. Fui até Curitiba algumas vezes. Numas dessas ocasiões, quando da visita in loco da Comissão da OAB, vivenciei um momento raro.

Estava em um hotel no centro de Curitiba. Desci para tomar café. Lá estava Warat. Sentei ao seu lado. Passamos boa parte da manhã conversando. Na época estava elaborando o projeto de minha tese justamente sobre uma das mais importantes reflexões waratianas: o senso comum teórico dos juristas.
Luis Alberto (como era chamado por Marta Gama) falou sobre seu pai, sua infância; tratou de fatos pitorescos sobre Cossio, Nino. Falou de sua fraternal relação com Albano. Foi então que me revelou de onde nasceu a ideia do neologismo “senso comum teórico dos Juristas”. Disse que tal ideia nascera quando da leitura de Althusser (Filosofia e Filosofia espontânea dos cientistas). Eu já desconfiava das origens estruturalistas (Althusserianas ou mesmo bourdieunianas) dessa ideia, ainda que indireta ou inconscientemente.

Lembro deste momento como algo muito importante para minha trajetória, algo que marca meu currículo oculto. Naquela manhã eu não estava diante do meu ídolo de juventude, do mestre de uma geração desbravadora da critica jurídica no Brasil. Naquele momento, estavam ali duas pessoas conversando sobre coisas em comum, rindo da vida e de si mesmos, sem nenhuma pretensão “séria”.
Haveria espaço para estes encontros hoje em dia, em nossas rotinas docentes? Nossos currículos lattes comportariam, em algum lugar, o item específico “café com Warat”? Aliás, pouco importa para esta lembrança coisas como lattes e rotinas pedagógicas. Lembro que, entre um gole de café e os suculentos – e hoje politicamente incorretos – ovos mexidos, Luis, o portenho-brasileiro mais baiano do mundo, dizia: “Vladimir, a vida é uma ilusão, precisamos ter as boas, as boas ilusões”.
Foto do dia em que tomei café com Warat.

Que assim seja.

12.10.2012

Vladimir Luz




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