28 de febrero de 2012

Reflexões sobre o movimento Casa Warat. Texto 1, parte 1.

Direito pela arte: O movimento Casa Warat

Autores: Eduardo Gonçalves Rocha e Marcia Cristina Puydinger de Fazio

O presente trabalho tem por objetivo apresentar o Movimento Casa Warat , programa de ensino, pesquisa, extensão e sensibilização, vinculado "marginalmente" ao espaço acadêmico, e já concretizado no Brasil e na Argentina.3
Alguns já devem estar indagando: mas, o que significa vincular-se “marginalmente”?
A resposta a essa pergunta norteia, de modo essencial, as idéias aqui desenvolvidas, uma vez que, faz parte dos propósitos da Casa Warat manter-se à margem, ser um movimento subversivo, transgressor. Queremos atacar os principais pilares da construção contemporânea do conhecimento acadêmico¬-científico. Queremos subvertê-lo, colocá-lo em xeque, apresentar sua oculta narrativa desumanizadora, explorar suas contradições e, ao final, construir algo novo, sobre novas bases.
Mas, se permanece a pergunta: “por que marginal?” Cabe, então, maio¬res esclarecimentos.
Transgredir não é colocar-se de fora, transgredir é corroer por dentro, é riscar lentamente os pilares estruturantes até que sua reparação não mais seja possível. Vemos, na academia, um espaço de tensões que pode ser cultiva¬do, assim, não estamos inteiramente dentro, mas também não nos colocamos inteiramente fora; queremos, inclusive, romper com essa dicotomia dentro/ fora, pois pretendemos ser um movimento que se realiza, sim, na academia, mas não só. Ao contrário da pretensão positivista, nosso objetivo não é ter um objeto bem definido: queremos romper as margens falsamente precisas da ciência jurídica4.
Utilizamos a arte como instrumento privilegiado, mas não qualquer arte. Não aquela conformada, com padrões certos e perspectivas bem delimi¬tadas; muito menos aquela massificada, produto e produtora da sociedade de consumo. Recusamo-nos a consumir e sermos consumidos. Queremos carna¬valizar, recuperar nosso corpo, nossa capacidade de expressão e de comunica¬ção, aumentar nossas escutas, alargar nossas possibilidades...
Queremos resgatar a legitimidade do delírio como fonte indispensável para a produção do novo, como fonte da criatividade subversiva, transgres¬sora, como questionamento da loucura permitida: o desejo de sucesso, de eficiência e de produtividade. Temos medo do sucesso, do “dar certo”, nosso delírio é uma reivindicação do “dar errado”, do “não ir por aí”.
Assim, buscamos, nas páginas seguintes, explicar sobre o principal projeto em que Luís Alberto Warat se engajou nos últimos anos, e com isso, apresentar também alguns fragmentos da proposta waratiana; num trabalho que também não deixa de ser um chamado, uma provocação, um toque, um roçar de dedos, que poderá ser o início de mãos que se encon¬tram ou que se despedem.

Continua...
Artigo inicialmente publicado na Revista Direito e Sensibilidade

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Nos últimos anos de sua vida, Luís Alberto Warat dedicou-se à construção do Movimento Casa Warat, uma rede de "casas", ou seja, lugares de acolhimento, que funcionam autonomamente, mas integradas, constituindo um rizoma. São responsáveis por desenvolver ações de acordo com sua proposta, o neosurrealismo. Procura-se questionar o espaço acadêmico por meio da carnavalização, para isso utiliza-se de estratégias como os saraus surrealistas; os cafés filosóficos; encontros de literatura e cinema; o estudo sistemático de autores que fundamentam a proposta: Onfray, Bauman, Foucault, Barthes, Bakhtin, Maffesoli e outros. Atualmente, há três Casas em funcionamento, em Goiás, vinculada à Universidade Federal de Goiás, Campus Cidade de Goiás; em São Paulo, composta por estudantes da graduação e pós-graduação, mestrado e doutorado, de Direito da USP; e em Buenos Aires, sem vínculos com nenhuma instituição de ensino. Para saber mais sobre a rede e fazer parte dela, envie um email para os autores deste texto.

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