17 de enero de 2011

WARAT e o luto colorido do meu coração



É passagem conhecida das fábulas heróicas a figura do mestre. O grande guru que indica ao herói os caminhos em direção ao centro da existência. O caminho de luz personalíssimo que só podemos alcançar quando tocamos o mais selvagem sítio de nossas interioridades. Diferentemente do imaginado, os heróis não são apenas os que povoam o imaginário infantil, mas todos que encaram longos caminhos em busca de grandes objetivos. E qual missão poderá ser maior que enfrentar a vida? Diante desse grande desafio que é a vida e as tortuosidades de seu caminho, nos tornamos heróis pela simples condição de ser. Para Joseph Campbell, todos somos heróis pelo simples fato (ou não tão simples assim...) de vencermos aquela avalanche competitiva de espermatozóides que nadam freneticamente em direção ao abraço quente do útero.
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Para a fábula e para a psicologia, o mestre não pode ser representado pela figura do pai que, pelos rótulos de responsabilidade, salvaguarda e amor, pode confundir a proteção instintiva com a desnecessidade de lançar os filhotes no abismo cru(el) da vida. Nossos mestres, assim, aparecem ao longo de nosso caminho e, no mais das vezes, chegamos até eles escutando apenas o eco rouco de nossos corações. Só o coração pode conduzir ao mestre. E quando podemos encontrá-los, é como ter nas mãos a chave de um grande baú de tesouros que ainda se esconde em nossos próprios jardins. Os mestres brilham como estrelas, apontando o dedo para o pote de ouro que se esconde no final de nosso próprio arco-íris. E porque brilham em demasia, se transformam em energia pura, incompreensíveis aos sentidos, impossíveis aos olhos comuns que brotam da mãe terra.

Meu mestre morreu, mas sem ter morrido. Tenho um otimismo em relação à morte, um otimismo que me falta em relação à vida. Prefiro pensar que o mestre deixou-me. Já me havia deixado a um bom tempo. Minha relação com o mestre Warat se deu como uma ejaculação precoce. Atingi o clímax e logo ele se afastou. Acompanhei o processo de abandono do plano terreno do Warat de longe, enviando energias curativas coloridas com o verde renovador da vida. Bebi tudo que dele podia, e logo ele partiu. Efetivamente não temos tempo a desperdiçar quando encontramos o mestre. É preciso sentir sua mensagem e seguir em frente, sabendo perceber o múltiplo olhar que o mestre lançaria em cada situação da vida.

Warat morreu sem ter me ensinado absolutamente nada. Os grandes mestres não ensinam, simplesmente caminham seguindo a luz que brota de seus próprios corações. Àqueles que intuitivamente sentem-se chamados pelo caminho que se descortina, cabe seguir. Os mestres ensinam de costas , em silêncio. Seguir trilhas onde nenhum pé ainda esteve, não é ter apenas coragem, mas confiança nos ecos sublimes do coração.

O mestre Warat foi das poucas almas que pude admirar em totalidade. Seduziu-me dos pés à cabeça. E agora se foi. Foi-se sabe se lá pra onde. Colorir sabe-se lá que parte da existência. Ele era um pintor de quadros invisíveis. Foi-se. Queridíssimo Warat. Que oco no peito me causa a partida dele. Como disse Quintana, quando um dos grandes vai embora, parece que o coração do mundo sofre uma parada cardíaca. Foi-se, assim simplesmente. Quando a morte chega, só existe o lamento e alguns pingos de esperança.

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