16 de agosto de 2010

Una ruiva: da série "Poesia feita em casa"

Do estranho demônio do amor





Não faço poemas para o mundo

Sou dos poetas egoístas

Que escrevem para as gavetas

A quem basta, por meio dos versos, compreender-se.



E assim é que nesta manhã cinza

eu sento mais uma vez à janela

E espero, ao findar-te, poema,

Sair daqui mais sóbria, mais livre



Sem esta pulsão de torpor e sangue,

Que sendo vida demais quase me impede

de respirar sem sufocar-me

de dormir sem sobressalto

de comer sem enjoar-me



Eu... que nem mesmo olhava a paixão com olhos de cobiça,

Que vivia, soturna, uma planície infinda

de amores-amigos



Eu...que me vangloriava entre os amantes

De bastar-me do amor as grandes obras escritas

De, sendo poeta, ainda que egoísta,

bastarem-me as rimas inspiradas

em romances de outros...



Eu...que agora me vejo entre a mágoa e a míngua

Querendo do amor, comê-lo inteiro

Querendo de um homem sua carne, seu pêlo,

seu prazer e seu descanso.



Eu...Que sempre fui a leveza,

Quero mais do peso que faz curvar

Quero vê-lo em transe, em titubeio

Quero vê-lo cair, hesitar.



E quero tê-lo, por inteiro, nesta fraqueza,

Neste incessante desejar

Quero dar-lhe colo, quero sê-lo

Tanto que não se reconheça mais

fora de mim

Tanto que não sejamos

sem sermos dois

Tanto que eu lhe deseje matar

e matando-o de angústia, de medo e de amor

Ah... Eu reviva!

Ah... Eu possa voltar a respirar!



Autora: Uma ruiva em terra de morenos



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