5 de septiembre de 2009

Lágrimas y lluvias son despedidas, una meseta más de nuestras mil y una


Caro mio,

Abro uma garrafa de vinho e derramo seu conteúdo aos poucos em uma taça (uma daquelas vazias nos "amores desmedidos" do Vino & Sofia), acendo um cigarro - como sempre -, as imagens ficam borradas - devem ser as lágrimas furtivas e silenciosas -, leio teu e-mail, vou ao teu fotolog e te encontro à caminho da tua aldeia, a tua Paris-Texas. Caminhas ao lado da também tua eterna Natascha, se sabendo, desde sempre. Olhar minhas pegadas elefantinas foi um gesto do amor (filia) que foi percebido a tempo, mas se nos equivocamos, o fizemos por um cuidado amoroso que temos um com o outro e talvez pensássemos que poderíamos estar um ao lado do outro neste rito de despedida gradual de nossas existências neste plano, o território de Gaia. A natureza chora comigo e as águas que vertem destes lugares escoam naturalmente para o grande rio que a todos abriga. Lágrimas e chuvas são despedidas, são também fertilizações para que novas vidas aconteçam no solo comum. Luis, não sei nem tu sabes dos caminhos que levam à tua Aldeia, nem tampouco ao descanso derradeiro do elefante solitário. Sei apenas que os intuimos pelos instintos que nos restaram de vivências onde fomos muitas vezes alienados de nós mesmos. Mas sei também que sempre estivemos e estamos próximos um do outro, por instinto, por amor, pois o amor nada mais é do que manifestação do instintivo. Agora mais do que nunca posso te falar, daquilo que sabes de mim desde sempre, desta caminhada única, não por desprezo à espécie, não por abandono dos amigos; simplesmente porque ela te impõe a solidão que resgata na Memória Ancestral todos os amores vividos. Recordamos para não cairmos no esquecimento, recordamos para continuarmos a perseguir nossas trilhas, íntegros e dignos da vida que Gaia nos ofertou tão generosamente. Não existem caminhos em comum, a qualquer momento acontece uma encruzilhada que nos afasta, que nos distancia e nela nos despediremos felizes e agradecidos, mesmo que com lágrimas nos olhos e o coração apertado pela saudade. Mas ainda não é o momento para nós, caríssimo amigo, continuemos... beijos Albano

Caro mio,
Muito obrigado por ser a primeira inscrição no meu fotolog. Nada me seria mais honroso que o teu reconhecimento.
Luis, Platão nas “Leis”, dizia que as pessoas com mais de sessenta anos não teriam mais de participar dos cânticos, cabendo às crianças, aos jovens e aos adultos fazê-lo. Entendia ele que neste concerto comunitário, "aos velhos se reserva o papel mais discreto e mais fundamental: como homens de sessenta anos que não são mais capazes de suportar o peso do canto, eles contarão a história sobre os grandes princípios e sobre os comportamentos admiráveis, serão os "mitólogos" da cidade, inspirados por um rumor vindo dos deuses”. Devemos ser querido Warat, os dialéticos do silêncio em que a sabedoria e a experiência atenuam a voz, para que, através de nós, só se ouça o rumor vindo dos deuses, o grande rumor incessante do Bom e do Belo. Esta é uma imagem em que nos vejo construindo em nossas caminhadas. Estamos indo em direção ao desnudamento, à retirada completa e absoluta dos véus que nos revestiram desde sempre, melancólicos, mas não infelizes e miseráveis. A acedia pode ser uma condenação como queriam os cristãos medievais, mas pode ser também o verdadeiro lugar da emancipação, antes da morte, antes do luto, antes da dissolução no seio de Gaia.
Talvez por isso, talvez por intuição, eu tenha lhe dito que não quero mais dar palestras, fazer conferências, como quando te citei que estou renunciando aos seminários de Curitiba. Quero tão somente falar em voz baixa e tranquila para aqueles que realmente queiram me ouvir, e assim quero contribuir para a retroalimentação dos cânticos, aos quais não mais participo. Talvez por isso, também intuitivamente, meus últimos grupos de estudos tenham sido sempre compostos por jovens, mais aptos que eu para os cânticos e narrativas públicas.
Creio que nestes diálogos retomados, verdadeiros "ritornares" que tenho contigo ao longo dos anos, existe um sentido de "destinação" que nos demos. Entrega de nossas vidas aos deuses pagãos, amorosos, lúbricos, apaixonados, sempre ético-estéticos. Por isto profanamos o improfanável. Por isto fomos excluidos dos comensais acadêmicos, bu
rguêses e totalitários. Às vezes, não entendiamos, às vezes, nos magoavamos e nos revoltavamos por não termos sido aceitos. Agora, creio, sabemos, que traziamos e trazemos inscrito em nossos corpos-vida os princípios dos elementais em nós manifestos; do homo sacer em sua condenação pública à ambiguidade: sagrados e profanos, portanto quaisquer um pode(ria) nos matar impunemente. Judeus e mulçumanos, muçulmanos e judeus ao mesmo tempo como diziam e dizem os nazistas.
Tenho convicção que devemos, mais e mais, retomar a Palavra em seu revestimento aurático, muito das vezes no silêncio que ela nos i
mpõe. Manifesta pela imagem (vide Andréa), pela musicalidade das vozes vindas dos cânticos e narrativas que devemos tão somente escutar. Pelo deixar-se levar também pelos ruidos da Physis que existenciamos empaticamente, sendo ela, partipando dela e não distanciados como nos ensinaram. Deixando nos levar pelas vozes que recolhemos amorosamente ao longo de nossas vidas, escutando-as humildemente, sem sentimentos de perdas ou de tristeza pela ausência dos corpos que conduziam tais vozes. Entendo que seja este um dos caminhos para a reconstrução aurática da Palavra.
O que me dizes?
Albano

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