18 de agosto de 2009

O Cosmos enquanto a condição humana

O narrador contemporâneo deve tomar para si a missão de contribuir para o desvelamento dos véus que encobrem e submetem a humanidade ao tempo sublunar, sacralizado pelo pensamento moderno enquanto delimitador das nossas experiências. Assumindo tal perspectiva, o faço pensando nos limites estabelecidos pela razão técnico-científica com vistas ao controle biopolítico de todas as formas de vida deste quadrante delimitado pelo saber-poder-lei. Daí talvez, a importância dada pela mídia em torno da “chegada do homem à Lua”, tema hoje rico de controvérsias, passados quarenta anos de sua enunciação (fantasia perversa da modernidade?). Abaixo do pequeno satélite tudo que existe deve-se ao advento do cientificismo, está escrito nas entrelinhas do discurso oficial; uma arrogante pretensão dos coveiros das origens ancestrais da humanidade.
Condenada ao Esquecimento e para dele escapar, a Memória Ancestral através da Recordação evocada pelo poeta-narrador, produz a ficção, o relato fantástico da saga de homens e suas relações com os deuses, verdadeiras expressões das forças primitivas da natureza. A narrativa contemporânea se deixa levar pelo legado da “voz primitiva esquecida ou perdida” que desapareceu nas línguas civilizadas, reencontrando a energia e a grandeza dos grandes relatos nos épicos como ”O Senhor dos Anéis” e “Matrix”, símbolos de novos lugares da narrativa épica, que são manifestos através da literatura e do cinema; um reencontro com os mitos e as fábulas anunciados pelos contos infantis das Mil e Uma Noites, nas viagens de Gulliver, nas histórias dos Irmãos Grimm. Creio serem estes alguns artifícios dos humanos legatários desta Memória, para que o esquecimento não seja absoluto e para que a recordação na sua função mimético-poética reinscreva permanentemente um universo para além da herança sublunar, a nós imposta pela racionalização absoluta da vida planetária.
A escolha de caminhos mneméticos significa uma re-inscrição na “idade mitopoéica”, naquele momento em que a humanidade inaugurava a linguagem das fábulas e dos mitos e se servia da narrativa oral e aural para produzir uma “memória social que deve ser entendida como a atividade mnemônica não especializada que garante a reprodução dos comportamentos da espécie humana(...). Memória constitutiva da tradição biologicamente indispensável para a humanidade, para quem desempenha o mesmo papel que o condicionamento genético nas sociedades de insetos”, nos lembra Marcel Dettienne.
A partir do século XIX, a Modernidade através de seus novos inquisidores, nomeados como cientistas, elaborou etnologias e mitologias, enquanto estruturas do conhecimento científico, com vistas ao controle e destituição de sentido dos mitos em nome da atividade racional. Toda a herança mítica passou a ser rotulada pela Antropologia nascente como o irracional inscrito nas antigas civilizações, enquanto mera “representação fugidia e provisória, de uma razão outra, ainda tosca e bem selvagem, já que o canibalismo, a magia e as atrocidades mais abomináveis parecem ali coisas naturais”, conforme A. Lang afirma em sua obra de 1886, “La mythologie”. Convêm também lembrar a contribuição de E. B. Tylor em livro publicado em 1873, “La civilization primitive”, onde afirmava: “A etnografia tem deveres graves, às vezes até mesmo penosos. Ela deve trazer à luz o que a rude civilização da Antiguidade passou às nossas sociedades sob a forma de superstições deploráveis e condenar estas superstições a uma destruição certa. Esta obra, se é pouco agradável, é indispensável ao bem estar da humanidade”.
Este é o tempo sublunar, que com suas forjas técnico-científicas modelou a humanidade dos “modernos”. Uma “Era de Trevas” que nos impede o acesso ao mundo solar. Estranha e perversa contradição que transforma o projeto do Iluminismo em imenso “buraco negro” cuja visibilidade possível só ocorre à luz dos artifícios tecnológicos. Assim, não fica difícil entendermos porque o flaneur desaparece das galerias parisienses quando da substituição dos lampiões de gás pela iluminação elétrica. A espécie humana aprisionada nos calabouços do esquecimento, nada retém de sua herança ancestral e as vozes retidas desde sempre em seu inconsciente histórico quedam silenciadas, natimortas pela impossibilidade de se constituírem em palavras, confinadas que são em espaços vazios e desprovidas de identidade. Somos os legatários da “memória mecânica”, da repetição constante daquilo que nas Academias nos fazem ler e decorar até a exaustão. Somos os servis arautos dos saberes consagrados pelo cientificismo, visto que não somos os produtores destes saberes, apenas seus aplicadores técnicos (cientistas sociais, professores, advogados, magistrados). Todos os conhecimentos a nós delegados enquanto fiéis guardiões da “reta razão, são as próteses aplicadas. “Chips”, “memórias estendidas”, “softwares”, inteligências artificiais que sepultam o “orador de mitos”: “um homem que sabe dizer sua opinião, falar como deve e quando lhe convêm”.
Destituídas da aura que as envolvia ao serem submetidas ao controle dos cientistas sociais, notadamente dos mitólogos modernos, as narrativas míticas deixam de ocupar um lugar no universo de compreensão da saga planetária humana. O fim da função anunciadora da Palavra oral, de seus mistérios, de suas interpretações dos fenômenos naturais, dos oráculos, toma as pessoas do mito como: “objetos de uma decisão pejorativa: excluídas da palavra política, são confinadas nesse espaço vazio e sem identidade, uma espécie de alteridade insignificante cuja subversão é considerada irrelevante”, conforme pontua Detienne. Excluída enquanto lugar da verdadeira história dos povos, numa confluência do lógos com o müthos, a narrativa mítica passa a ser incluída no espaço das estórias infantis, dos contos de fadas, inclusão que a infantiliza definitivamente. A história “oficial” silencia as vozes dos seus verdadeiros artesões, dos que a forjaram e lhe deram sentido com seu sangue, com suas vidas e como exemplos do heroísmo de todos. Esta história descrita nos manuais acadêmicos constrói o anonimato dos grandes feitos, os reduzindo a uma cronologia de “fatos cientificamente comprováveis”. História sem homens ou mulheres, apenas de estatísticas “oficiais”, que nos distanciam mais e mais de uma historicidade efetiva de todos enquanto Memória, comprometimento para com os antepassados e seus feitos, que moldaram nossa condição de sentido. Sem história, sem memória, somos tão somente folhas em branco onde a heteronomia monta nosso currículo vitae, nossa Plataforma Lattes.

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