2 de agosto de 2009

KLAATU



Humanismos e fantasias – O dia em que a Terra parou

Parte II

Epígrafe (segunda tomada)

Em seus “Monadismos monogâmicos”,- narrativas retiradas de sua caixa de Pandora -, Warat faz uma afirmação: “O humanismo é sempre um ato de fantasia, e isso a modernidade perdeu de vista”.

Cena 1: É um pássaro? É um avião? Não, e o Super-Warat

Olhando para os céus podemos ver uma figura atravessando o negro buraco da camada de ozônio, uma das obras primas da tecnociência da Modernidade. De seu corpo partem raios flamejantes que lembram a manifestação de Thor, deus dos trovões e dos raios. Para os modernos ele lembra o Super-Homem. Este não é o caso para nós, que nunca fomos modernos. Quem vemos cortar os ares tal um Zaratustra alado, é o Super-Warat, armado com seus textos, antigos e novos, panfletos amorosos largados ao léu através de suas janelas virtuais. Ao seu lado, aos poucos podemos vislumbrar uma legião dos abandonados, dos esquecidos pelos saberes “oficiais” da Academia. Backtin, Barthes, Saussure, Bachelard, Castoriadis, Benjamin, Cortazar e tantos outros que virão ao som das trombetas (de Jericó?). “

Cena 2: Por quem a Terra parou!

O Dia em que a Terra Parou, merece da indústria cinematográfica duas versões, sendo a primeira nos anos cinqüenta do século XX, a segunda, na primeira década do século XXI. A releitura feita na segunda versão modifica profundamente a abordagem feita, mas o tema central é mantido incólume. Os dois filmes tratam da vinda de um mensageiro alienígena ao nosso Planeta para mostrar que o desequilíbrio ecológico que a humanidade tem submetido a Terra, passou a representar uma ameaça maior, provavelmente para a nossa Galaxia. Em ambos pediu para falar com aqueles que representassem a humanidade como um todo. Em ambas as versões Klaatu, o mensageiro, não reconhecem no presidente dos EUA (a nave desce no primeiro filme em Washington, no segundo em Nova Iorque) o interlocutor desejado, ele quer falar com representantes de todas culturas. Impossível no primeiro caso face o anátema produzido pela guerra fria; no segundo caso, uma secretaria de Estado dos EUA, afirma que eles são proprietários da Terra e, portanto, os únicos interlocutores possíveis. Em ambos, a comunidade científica aparece como coadjuvante, frente o Poder Político manifesto pelo Estado. Em ambos, esta comunidade aparecia desprovida de papel convincente no palco das decisões. Nas duas versões Klaatu (herói ou vilão?) demonstra que pode paralisar os produtos da Modernidade (energia, comunicação, armamentos, transportes) e até destruí-los, produzindo assim um rastro de destruição da própria humanidade. Nas duas versões, o Planeta Terra não paralisaria. Mas sim os parasitas (leia-se: a espécie humana) que a habitam e que ameaçam a existência de todas as formas de vida planetária através dos seus produtos tecnológicos.

Nas duas versões, a mesma pergunta: Você veio para nos alertar e nos salvar? Como também a mesma resposta: vim salvar o planeta Terra.( a refilmagem mostra bolhas tais arcas de Noé resgatando diversas espécies animais, à exceção da humana, é claro) Assim, Klaatu demonstra que o fim do ciclo dos parasitas humanos e de suas criações, representa a retomada da Vida (de Zoé, como diria Aristóteles) planetária, assim como o reequilíbrio das demais vidas na Galaxia. Não é necessário dizer em nome de quem “um dia a terra parou”.

Cena 3: O resgate

No movimento fílmico (movie), o homo sapiens sapiens, visto desde a perspectiva de sua mutação para o homo faber, preserva algo do homo ludens, ao menos em alguns de seus espécimes, que traduz um outro vinculo planetário-existencial. Um movimento peculiar em direção à Vida, aos outro seres vivos e fortemente aos seres da sua espécie. Um movimento de reconhecimento do outro, talvez como em latim: alteru, que quer dizer outro entre dois, que eu ousaria nomear como a própria humanidade. Não sei se esta definição que tomo, aproxima-se do que o Warat pensa como “otridad”.

Para tanto, em ambas versões dois personagens convivem intensamente com a fugaz passagem cinematográfica de Klaatu: uma criança e uma mulher. Aparecem como lugares recônditos, arcanos de uma humanidade decaída, desprovida de sentido. Emergem no Caos, do Caos. Como avatares que resgatam o que resta de sua espécie em nome de uma nova mutação numa possível evolução pela preservação da Vida. Resgate amoroso? Esperança de novos ciclos vitais? Medo da morte eminente? Reafirmação do egoísmo ancestral?

Cena 4: último movimento fílmico

O dois filmes fecham a cena final com a partida de Klaatu após a desativação do arsenal letal que havia ativado para “limpar” a Terra dos humanos. Aceita ele, a tese de um cientista-ermitão, zeloso de sua ermida alquímica que afirmava que apenas diante da destruição eminente da Vida, a humanidade poderia remir seus erros. A criança e a mulher seriam, naquele momento, a prova desta afirmação. Mais uma crença? Quem sabe.

A cortina, fecha, as pipocas derramadas no chão, as garrafas vazias deixadas de lado. Um desespero: Que filme o publico assistiu? Que filme o público recepcionou? Nenhum dos dois creio eu (salvo alguns extraterrestres), sem querer ser pessimista.

Na saída da sala de projeções, de um Shopping Center naturalmente, saio catando pelo chão os panfletos libertários-libertinos deixados pelo nosso super-herói, o Super-Warat.

Albano Pêpe

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