30 de julio de 2009

Terça feira, 10:45hs. O tempo escoa por entre os


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“Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar: deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender”.

(Bernardo Soares, um semiheterónimo, de Fernando Pessoa, segundo o próprio. In: Livro do desassossego)

“Assim estou me sentido agora, nu e com muito frio...”

(Albano Pêpe. Memórias em desconstruções. Postscriptum)

Poderia ser quarta-feira, um outro dia qualquer, a qualquer hora. O que marca é o tempo que escoa por entre os dedos. Pergunta: Por o tempo se esvai? Resposta: porque queremos retê-lo. Simples, não é?

A narrativa nasce para dar continuidade à memória da existência temporal. Para que as experiências não sucumbam logo depois do acontecimento, do acometimento enquanto memória. É ela, a mnemesis que se exige enquanto compartilhamento, visto que desde os gregos antigos, o mundo das ações e obras humanas, em contraposição à ordem perene da physis, define-se por sua mortalidade. Com efeito, inseridos num mundo temporal, as obras e os feitos humanos são perecíveis e, como tais, marcados pela finitude dos próprios homens. A tarefa da rememoração narrativa comum à poesia épica e à historiografia, funda-se, pois, na exigência e na pretensão de conferir durabilidade e permanência aos feitos e obras humanas, subtraí-los assim à sua perecibilidade”, conforme nos diz de Luis Inácio Oliveira.

Amplio um tanto tal rememoração narrativa. Ousaria até dizer que sempre, desde sempre estamos narrando. Lembram-se das inscrições rupestres gravadas nas rochas por nossos ancestrais? Memórias deixadas ao longo da vida nômade dos primeiros homo sapiens sapiens. Desenhos e gravuras que marcavam a forma de ser deles, deixadas para quem? Por que? Graças a tais rabiscos sabemos muito dos atos inaugurais de nossa espécie. Eles sabiam o que estavam fazendo, eles sabiam que tinham que deixar rastros de seu ethos para que nós os conhecêssemos, para que não fossem simplesmente esquecidos, porque a espécie humana para continuar existindo cumpre o desiderato de produzir memória. A narrativa demarca o tempo, tempo da nossa existência finita, tempo dos mortais, tempo da finitude e da memória, tempo da perenidade do efêmero.

A narrativa que tecemos, acontece dolorosamente, visto que ela acontece através de mergulhos que fazemos desde sempre em memórias ancestrais que acumulamos, atravessando texturas que sabemos existir, mas esquecidas. Lembranças fantásmicas que acontecem tais correntes marítimas, ora frias, ora quentes, ora escuras, ora límpidas. São gerações e gerações passadas que nos constituem através de “agoras” que podem iluminar nossos passos ou cegar-nos. Creio que é sábio seguir os conselhos de Goethe quando não sabemos o que vemos: “mas em cuanto capciosa empieza a ser la senda, y niebla impide el mirar claro, del propio corazón torna ao refugio, y en el de sus amores busca amparo”. Creio que é isto que estamos fazendo, Warat, Andréa e uma multidão de anônimos; estamos tecendo narrativas, apropriando-nos da palavra do narrador em nosso tempo, tempo dos mortais. Construimos e desconstruímos o que vai vestindo nossa nudez, visto que não nos suportamos nus, e a Palavra, em sua ambigüidade nos veste ao mesmo tempo em que nos desveste. Portanto, a narrativa que tecemos acontece dolorosamente. Assim como os amores: vestem-nos e despem-nos. Neste sentido vale a pena mais uma vez escutar o poeta, ao narrar: “...del propio corazón torna al refugio, y en el de sus amores busca amparo”.

Muitas e muitas vezes nos reportamos aos deuses, às musas, às fadas, vislumbrando um passado épico, um “tempo eterno e imemorial no qual vivem os seres divinos”, como que para vivermos intensamente uma outra rememoração, desta vez épica, de um mundo onírico que também criamos enquanto um “Outro” que nos faz voar para outros mundos, outros horizontes que ultrapassem os férreos limites do tempo sub-lunar e nos remeta para o tempo cósmico, o tempo de physis, vivem os demais animais. Mas, isto é uma outra história...

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