13 de julio de 2009

Manhãs de sabado e seus mistérios

Querido amigo,

Recebeu meu gesto-escrita indignado? Peço-lhe que coloque a foto de um lobo, um lobo que represente sua espécie, sem traços humanos, meigos ou terríveis, pois tais emoções são típica da nossa espécie. Não pensei no meu texto, em um lobo aprisionado pelo simbólico, mas um lobo, um membro de uma outra espécie com quem me identifiquei pela absoluta diferença: ele livre e eu prisioneiro. Talvez por ai vá meu lamento, visto que somos animais que negam sua animalidade.

Acabo de ler teu último texto, escrito num amanhecer envolvido pelas sombras invernais e por um frio intenso que sabes existir lá fora, fora da caverna onde estás, e de onde silentemente cuidas da tua ninhada geracional (filha e neta).

Creio que consigo vislumbrar finalmente para quem escrevo: o faço por você que é meu interlocutor real. Que não é fruto da minha fantasia , nem das minhas ilusões. Assim como você, teço o fio delicado daquilo que nomeaste na tua ultima fala: o fio da magia. Somos magos sem platéia, sem picadeiro, sem palcos. Somos magos porque por desiderato, traduzimos nossa permanência em Gaia como algo mágico. Não vivemos de ilusões e não vendemos ilusões. Apenas vivemos a vida em sua intensidade maior, recepcionando-a e sendo por ela recepcionados na construção de nossas biografias (assim como há pouco, me descreveste em rápidas pinceladas a tua). Não são biografias heróicas, nem escudadas pela covardia. São relatos, fragmentos, de vidas vividas em suas precariedades e forças. Choramos onde tivemos que chorar, rimos às gargalhadas quando tivemos que gargalhar. Escolhemos nossos companheiros de caminhadas; uns e outros para cada caminhada. Morremos todos os eus que foram deixados para trás, porque morremos aos poucos com eles. “Quem sou não sei. Quem fui, morri-o”, disse Fernando Pessoa.

E, cada um desses albanos e warats epocais, existenciados, fizemos e fazemos réquiens, transformados em orações poéticas, orações mágicas, que não buscam a ressurreição nem a redenção das almas partilhadas/partidas, pois não nos permitimos a orações salvíficas. Apenas instalamos em cada reconhecimento dos albanos e warats acontecidos, a saudade de sabermos que só os resgataremos no mundo mágico que somos capazes de produzir. Aqui, anuncio o primeiro movimento mágico da nossa amizade: ao escrever para você, escrevo simultaneamente para todos os albanos e warats que partiram. Segundo movimento mágico: através dos textos, dialogo com todos numa algazarra sem par, com gestos de fraternidade incontidos. E assim, a cada um que se aproxima para participar deste café inaugural, o recebo tal como se me apresenta, apenas recepciono e converso. Tais são as personas que convivem nos meus textos e nos meus textos. São a realidade deste mundo mágico, construção única de quem se relata aos fragmentos sem perder sua unidade de sentido.

Paro por aqui, pois temo que o texto fantasmicamente desapareça d minha frente.Que tenhas um bom final de semana.

Daí, mais uma vez minha questão: vale a pena publicizar o que escrevo? Continuo acreditando que não. Se o faço é tão somente por amor a ti meu amigo.

Albano

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