9 de julio de 2009

A flânerie e os internautas




Lendo com certa desatenção O Flanêur de Benjamin, apreendido na narrativa baudeleriana como “o homem das multidões” o vejo também associando esta figura típica do mundo parisiense do século XIX com os personagens de Poe em seus romances. Homens que se desmancham por entre a multidão, que nela se ocultam, desaparecem. Homens solitários, misteriosos, cuja solidão só encontrava sentido no meio da multidão:

Cada um, nos acotovelando sobre a calçada escorregadia,

Egoista e brutal, passa e nos enlameia,

Ou, para correr mais rápido, distanciando-se nos empurra.

Em toda parte, lama, dilúvio, escuridão do céu.

(Baudelaire)

O que seria, me perguntei, a flânerie neste século XXI, ou melhor, quem seria o flâneur dos nossos dias? O que me veio à mente foi a imagem do internauta, deste ente

que ao invés de atravessar a massa humana que invadia as ruas e as galerias de Paris, atravessa hoje a multidão que habita os blogs, os fotologs e tantos outros aglomerados humanos virtuais. O internauta é o flâneur que não mais desloca seu corpo para um embate com outros corpos. Que não sente o calor, o cheiro, o toque ou o esbarrão de um outro passante, que nem sempre se esquiva e vai. Não, o internauta tem seu toque limitado ao teclado e ao mouse e a multidão da qual participa apresenta-se numa tela LCD por onde seus olhos gravitam. Windows abertas em um mundo unidimensional, permitem ao navegante atravessar multidões virtuais, a escutar as vozes silentes que relatam, que atropelam os textos como se os vomitassem.

Não existem pessoas, nem cheiros, nem ruídos, nem vozes, nem corpos que se atropelam, apenas letras, que viram palavras, que viram frases que prescindem quase sempre de sentido, pois interlocutores não existem também, apenas mais palavras virtuais, clean, limpas. Tão limpas que contraditoriamente carregam programas-virus, que invadem os hards, os softs, mas que não invadem aparentemente nossos corpos físicos, ausentes, distantes, inalcançáveis, pois virtuais também, quem sabe.

Multidão desprovida de rostos, de cheiros que a denunciem em suas singularidades, de sexos e de sexualidades, que se transmuta em personagens, em fakes, como me ensina Isadora, minha neta.

Vejo no noticiário o cortejo fúnebre do corpo virtual de Michael Jackson acompanhado por milhões de virtuais fãs que compraram no comércio virtual os ingressos para o enterro-show que acontece em Los Angeles (lembro que Los Angeles fica também aqui na sala de minha casa em Itaara, ou em qualquer lugar plugado no noticiário globalizado). Estamos no cortejo de um corpo que já não há, que talvez nunca tenha sido, visto que ele faz parte de uma rede de significações desprovidas de significantes. Estamos no meio da multidão de pessoas que não se tocam, cujas memórias guardam informações que são confundidas como experiências fáticas mesmo que virtuais. Os fãs emocionam-se ao ritmo do script montado e divulgado pela Internet previamente. As visitas ao túmulo-virtual também serão contabilizadas pelo número de visitas ao cemitério-site. A presença-ausente do corpo será reverenciada em ordem planetária. Bilhões de anônimos fãs estarão fazendo suas últimas homenagens ao ídolo-virtual que ganha a imortalidade dos clipes que serão exibidos à exaustão. Enfim, a morte é burlada em seu desiderato de provocar o esquecimento fruto da ausência, pois ausência não há na virtualidade da existência. O tempo e o espaço ficam suspensos ao longo da produção de sentido realizada pelos ícones comercializados pelas lojas virtuais que funcionam 24 horas ininterruptamente, para sempre, desde sempre, em um sempre que nunca existiu. Perversas fantasias começam a acontecer no solitário mundo do internauta, o flâneur pós-moderno, que nem moderno chegou a ser. Que funeral assistimos?

Estranho, estrangeiro, estranhamento, tais as percepções que tenho de mim na encruzilhada posta: flâneur ou internauta, ou que sabe flâneur-internauta. Será que tenho o card que me dará acesso ao meu blog existencial. Cogito, ergo sum, é algo possível como elemento fundante da moderna racionalidade? Existo, por que penso? Penso, porque existo. Me parece neste momento que esta não é a pergunta correta. Talvez a pergunta correta seja: EXISTO?

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