24 de julio de 2009

Diatribé, ou conversações filosóficas


Escrito ou discurso violento e injurioso, esta é a definição em língua portuguesa do substantivo feminino nominado diatribe. Portanto, retirando a ambigüidade das palavras, atravesso suas armadilhas iniciando este diálogo-narrativa, inspirado pela raiz latina diatribé, ou seja, conversações filosóficas.

Minha fonte de inspiração: “El lobo estepario es El hombre”, escrito por Warat na esteira dos textos dos referenciais lupinos. Em algum lugar, falei dos momentos-lobo. Sim, creio que temos momentos-lobo, momentos-águia, momentos-koala, enfim, momentos em que nossa almas migram para outros corpos, de outras espécies. Assim o indicam alguns xamãs, ao ofertarem algumas ervas sagradas aos guerreiros em seus ritos de iniciação e quando os mesmos vivenciam a passagem de suas almas para os corpos de outros animais. Isto me faz recordar as pesquisas realizadas nos anos 70/80 por Carlos Castañeda ao estudar alguns ritos de iniciação dos guerreiros de algumas comunidades mexicanas.

Quero colocar uma questão para mim muito sensível, visto que no meu entendimento não detemos o duplo homem-lobo. Não creio que exista um lobo exilado em nossos arcanos. Pois se houvera, poderia por estratégia comparativa, justificar o discurso do apóstolo Paulo, mencionado por Warat, quando o mesmo fazia a apologia da luta do bem contra o mal, do puro contra o pecador. Não, para mim isto poderia ser lido como a justificativa para os atos violentos que podemos cometer contra a vida; posto que, todos os atos ignóbeis que cometemos ou que poderíamos ter cometido, seriam traduzidos como vitórias momentâneas, em nós, do mal e do pecado, assim como de nossa animalidade no estado de natureza, enquanto lobos, enquanto predadores. Tais atos seriam pordoáveis de acordo com Paulo. Portanto, dignos de remissão, do perdão divino, do tipo, ”arrependei-vos e serás perdoado e suas almas serão salvas”.Como também “salvos” pelo poder soberano racional da modernidade, que nos retirou do estado de natureza, quando nossa condição era a de lobos do próprio homem”. Prefiro o DEUS do Antigo Testamento que pregava “o olho por olho, dente por dente”, ou seja, aqui o fizeste, aqui pagarás, como homem que és. Como também prefiro a formatação da cultura humana a partir de suas raízes gregas na construção de seu ethos (aqui entendido enquanto costume e hábito).

Não posso pensar um lobo em mim, como responsável único da minha animalidade perversa, do meu lado incontrolável e pleno de capacidade destrutiva. Quando, em contrapartida, meu lado humano cultivaria a docilidade, a meiguice e a bondade. Seria este o lado do homem-gatinho angorá?. Vejam como é fácil nominar atos típicamente humanos nos animais.

Vamos ao óbvio (que por sê-lo, às vezes não o é, como ensinava Rubem Alves): lobos são lobos, homens são homens. Este é o despenhadeiro que nos separa; não dialeticamente, não contraditoriamente, mas sim enquanto contrários absolutos, gêneros distintos do reino animal. Cabe-nos, enquanto espécie dotada de linguagem e imaginação recepcioná-los tais como o são. E, ao recepcioná-los, encontrar traços nossos que prefiguram um corte lupino. Isto sim é possível, por sermos – nós e os lobos – animais que habitam Gaia. Daí, a partir desta delicada ponte imaginária que atravessa o precipício da alteridade absoluta, encontramos nossos vínculos, nossos elos ancestrais. Somos animais em toda a complexidade que tal fato implica.

Temos a animalidade como algo em comum com as demais espécies, mas para melhor sabermos disto temos que pensar “o animal que logo somos”, lembrando um pouco Derrida, sendo um pouco Derrida. Parece-me, que ao adentrar, ou tentar adentrar nesta “floresta sem clareiras” deste “animal que logo somos”, escorrego de imediato no “quem sou eu”, talvez a pergunta originária, a pergunta correta a ser feita neste momento. Para tanto, ouso em um deslocamento mimético sentir-me Derrida, sentir-me perdendo a segurança de um “eu” sólido, singular, um único “eu”, para me sentir um “eus”, tantos quanto posso pensar que sejam o animal-homem. Para, tão somente assim, pensar os “outros” animais a partir de um limite, como o quer a tradição denunciada por Derrida ao afirmar que: “... os filósofos sempre, todos os filósofos, julgaram que esse limite era um e indivisível; e que do outro lado desse limite havia um imenso grupo, um só conjunto fundamentalmente homogêneo que se tinha o direito, o direito teórico ou filosófico de distinguir ou de opor, ou seja, aquele do Animal em geral, do animal no singular genérico. Todo o reino animal com exceção do homem. O direito filosófico se apresenta então como o direito do “senso comum”. Esta concordância do senso filosófico e do senso comum para falar tranquilamente do Animal no singular genérico é talvez uma das maiores besteiras, e das mais sintomáticas daqueles que se chamam homens”.

É como um querer colocar de cabeça para baixo, sem necessariamente negar, um dos enunciados afirmados por Kant em sua Crítica da Razão Pura, ao fazer seus desdobramentos sobre o homem enquanto ser racional. De sua parte ele diz que “A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos concordantes a autoridade de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, deve ir ao encontro da natureza, para ser por ela ensinada, é certo, mas não na qualidade de aluno que aceita tudo o que o mestre afirma, antes na de juiz investido nas suas funções, que obriga as testemunhas, a responder os quesitos que lhes apresenta. (...) de procurar na natureza (e não imaginar), de acordo com o que a razão nela pôs, o que nela deverá aprender e que por si só não alcançaria saber”.

Coloco face to face, uma (im)possível conversação filosófica, fruto da linguagem em que nos definimos e somos definidos enquanto espécie animal (única?)em relação as outras espécies, de animais também (por nós nomeadas de Animal em geral), existentes na natureza, na qual estamos e somos.

Albano Pêpe

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