23 de junio de 2009

Urgencias do narrador

Epígrafe:

A Grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico. No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver...

Walter Benjamin

Assim hoje a natureza se manifesta: primaveril em um dia de outono. O céu azul-claro sem nuvens no horizonte e contrastando, rajadas de vento inquietam as copas das arvores e levantam um fina poeira que insinua-se nas frestas das janelas e de nossas almas. Prenuncio de tempestade. Os animais ficam quietos, silenciosos como a espreitar as transformações que logo irão ocorrer em seus habitats. Mas o que vemos é um pano de fundo de rara beleza, de uma luminosidade suave e envolvente. Não existem sombras, senão aquelas que projetamos com nossos corpos festivos. A janela se movimenta em um vai-e-vem cadenciado, emitindo uma batida permanente. Os azulejos do banheiro deixam escorrer pequenas gotas d’água que lembram o orvalho depositado na úmida grama que envolve meu entorno (neste momento, lembro-me de Macabéa, com o rosto afundado na suburbana grama que recebe seus últimos suspiros).

Fixo meu olhar desatento nos azulejos, úmidos escorrendo a água em gotículas tal lágrimas que deslizam em rostos ...Tantos rostos.

“El lado oscuro del corazón” no dia seguinte. Chove copiosamente

Existe uma calle em Buenos Aires onde as salas de cinema perfilam-se umas às outras, mano a mano. Caminho quinze quadras para assistir Amadeus em uma avenida cujo nome está guardado em algum lugar dos meus arquivos cobertos de teias tecidas em vidas outras que vivi e que as morri. Abro o portal do tempo, guardião das memórias imemoráveis usando como chave as musicas tocadas por Piazzolla com seu bandoneón fantasmático.

Enfim chegas a minha morada querido amigo. O que me trazes em tua mochila de andarilho? Películas e mais películas e tuas palavras jorram, passando por Marlon Brando, por Don Juan de Marco, por Manoel Puig e seu beijo da mulher aranha, por Jorge Amado e sua dona Flor e pela tua ciência jurídica (obra fílmica desde sempre inacabada). Me falas da sedução do portenho pela cultura cinematográfica. Faz-me recordar de tantas narrativas tuas acerca de tantos filmes vividos em tua juventude pelas calles da tua Buenos Aires, da tua cultura nostálgica e melancólica, que sempre traz consigo o Tango enquanto pano de fundo, enquanto weltaanchaung (visão de mundo perene).

Tua chegada repentina deve-se provavelmente porque acabo de assistir El lado oscuro Del corazón e que, tal espectador de um filme de Woody Allen, invadi a tela e vivi intensamente o roteiro-vida, ao lado dos personagens. Não posso imaginar o que se passou em ti quando o assististes. Mas creio que falaremos sobre isto em breve.

Podemos pensar a vida como um quadro-a-quadro, retida sem mais nem menos em fina celulose que a guarda para a produção de uma cinemateca interminável, como memória ou como mero depósito de entulhos.

Agora escuto BajoFondoTangoClub e não resisto: por favor garçon,uma taça de vinho Finca Beltran, (uma outra imagem se sobrepõe: Marrocos, uma dose de uísque, Casablanca). Acabo de abrir teu fotoblog e vejo teu quarto azulejo, teu olhar ante o cataclismo do legado burguês, a Insustentável leveza do ser, o messianismo benjaminiano que oscila do profundo desespero do Diário de Moscou ante a inconsistente existência da Rússia, sua paixão frustrada por Asja Lacis, para a redenção quando pensa no futuro e ele, Benjamin afirma: “mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias”.

Pelo que sinto, estou submetendo-me aos ritos de depuração de muitos lixos acumulados nestes anos que me separam da última vez que estivemos juntos em Buenos Aires, para, como num Eterno Retorno deixar-me levar mais uma vez pela alma portenha.

Esta narrativa seria mais longa, mas ante o fracasso de não ousar descrever o filme assistido e face a urgência que se apodera de minha alma, urgência em parte ditada pelo teu quarto azulejo, esta narrativa segue fiel ao meu modo de ser: fragmentária e fragmentada, nesta primeira tarde-noite do inverno de 2009 (conforme os ditames do tempo sublunar).



Albano Marcos Bastos Pepe

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