12 de junio de 2009

Ao construirmos os rizomas aéreos da fantasia, lá também criamos os ninhos dos dragões









Recepcionar a vida em movimentos que vão do tempo cósmico ao tempo sublunar significa antes de tudo pensar o acasalamento dos gametas, que nos animais são denominados de óvulos e espermatozóides; e que nos vegetais são as oosferas e os anterozóides. Da união, o ovo e o zigoto, sementes que germinam e reproduzem vida. No tempo cósmico tais movimentos prescindem da enunciação, pois ela ali está desde sempre. No tempo sublunar, depositamos a Palavra e a memória. Pensamos e criamos o tempo do amar e do procriar. O tempo do arar, no tempo da semeadura, no tempo do florescer e no tempo da colheita. E assim também pensamos e criamos o tempo da ceifadeira, da morte em suas diversas alegorias por nós retratadas ao longo dos séculos, marcando a finitude inaugurada pela reprodução. Tempo de inscrição, tempo do silêncio das lápides.




Quão naturais podemos nos sentir ao mergulharmos nas imagens inscritas na memória ancestral, ao nos remontarmos à dimensão telúrica. Somos a poeira cósmica que investe na Vida. No acontecer, somos a infinita finitude que se perpetua pela espécie, posto que, como pensaria Aristóteles, somos potência destinada ao ato, à plenitude e ao ocaso. Tais divagações possibilitam pensar uma origem rizomática, ao estar enraizado em algum plano: o das raízes que mergulham no seio da terra e dela retiram seus nutrientes, ou quem sabe, das raízes aéreas que buscam no evanescente, na leveza do ar sua fonte de vida. Tais são os movimentos que em nós gestam a Vida, motor primeiro que a tudo permite sentido. Vivemos, portanto, primevamente a saga de todas as espécies, de todos os gêneros, dos habitantes de Gaia, da fecundidade que gera e perpetua a vida e a morte.




Na physis, as sementes acontecem por junções físicas que vão do coito à polinização, em equilíbrios e desequilibrios de ecossistemas que buscam incessantemente continuidade geracional pois esta é a inscrição definitiva no Cosmos e nas formas de vida possíveis no tempo sublunar regido pelo tempo cósmico que as envolve e abriga. Destes elementos originários, a partir de processos evolucionários existentes em todas as espécies, nós, homo sapiens sapiens, desenvolvemos para além das raízes assentadas em nossa natureza empírica, rizomas aéreos que buscam representar a origem e o sentido da espécies, notadamente da humana.




Eis um relato, eis uma ficção, que através da linguagem apresenta ao existir, inscrito e datado em um tempo que só se torna possível porque nós humanos lhe ofertamos o sentido do ato criador. Somos deuses, inventamos deuses. No tempo cósmico, ao qual pertencemos desde sempre, tais ficções não existem, visto que seus movimentos não são revestíveis pela Palavra. Ali, habitam os dragões, aqueles minúsculos seres anunciados pelo Warat que, ao ver-se criatura sublunar e cósmica, encerrado “em uma soledad perfecta” e sem cartografias prévias que o orientem nos terrritórios desconhecidos do Caos cósmico, os recepciona através de suas “baladas para um loco”. E, ao fazê-lo, busca um religare já perdido nos tempos desprovidos de lembranças, esquecido por muitos de nós, pobres na produção dos rizomas aéreos voltados para o impessoal. Mas não por ele, feiticeiro da Palavra, que quer “vivir em medio de las olas permanentes de estados de locura”. Funâmbulo, equilibrista solitário no silêncio do Cosmos.





Das pilhas de livros que ficam amontoados ao meu redor, escuto a voz de Giorgio Agamben que, sem cerimônia, se convida para participar desta narrativa ao escutar minhas referências aos deuses. Sem maiores delongas me fala de Genius, o deus que preside o nascimento, segundo os antigos latinos: “(...) esse deus intimo e pessoal é também o que há de mais impessoal em nós, a personalização do que, em nós, nos supera e excede. ´Genius é a nossa vida, enquanto não foi por nós originada, mas nos deu origem`. Se ele parece identificar-se conosco, é só para desvelar-se, logo depois, como algo mais do que nós mesmos, para nos mostrar que nós mesmos somos mais e menos do que nós mesmos”.




Olho através da janela e percebo que a neblina envolve gradativamente minha morada, num abraço silencioso e mágico. Vem-me à mente a recomendação de Goethe quando a neblina nos envolve e nos impede de ver o rumo da caminhada: voltar-se ao refugio do coração, guardião dos amores vividos e neles buscar o amparo necessário ao tempo do vagar.




Meu diálogo com Agamben torna-se cada vez mais instigante. Ele afirma que há uma idéia do homem implícita em Genius que o coloca em duas dimensões, enquanto Eu e consciência individual e enquanto elemento impessoal e pré-individual, ambos enquanto presença, junto a nós, o vivido e o ainda não vivido, abolindo desta forma o tempo (sublunar) “epifania e presença de Genius”. Assim sendo, a aparição inaproximável convive dialeticamente com o Eu pretensamente autosuficiente, impossibilitando a formação de uma identidade substancial, “Genius é a nossa vida, enquanto não nos pertence”.

Deixo-me levar pelo ritmo das nossas vozes, já que a cerração impede uma mirada segura do sitio em que nos encontramos. Jogados no mundo, usamos a Palavra como bússola. Nomeamos, designamos, definimos, enfim, jogamos a rede da linguagem para nos apercebermos do mundo ao qual fomos atirados e, ao mesmo tempo, para construirmos mundos nos quais possamos sentir segurança e estabilidade, num solo onde temos a pretensão de plantarmos nossas raízes adventícias subterrâneas. Ali, pretensiosamente queremos uma identidade substancial, a consciência de um Eu perene e imutável, “infinito enquanto dure”. Tais pensamentos, logo captados por Agamben, fazem com ele profetize: “(...) o encontro com Genius é terrível. Se, por um lado, é poética a vida que se leva na tensão entre o pessoal e o impessoal, entre Eu e Genius, por outro é pânico o sentimento de que Genius venha a exceder-nos e superar-nos sob todos os aspectos, que nos aconteça algo infinitamente maior do que nos parece ser suportável. Por isso (enfatiza), a maioria dos homens foge aterrorizada frente à parte impessoal, própria, ou, procura, hipocritamente, reduzi-la à própria estatura minúscula”.




Territórios desconhecidos, elementais, impessoais e pré-individuais, diante deles retomo Warat que falava das observações de cartógrafos antigos na feitura de seus mapas e que, ao depararem com regiões até então estranhas, exclamavam: “aqui debe haber dragones”. Enfim a textura do dialogo vai-se apresentando aos poucos. Visto que Genius, a mim apresentado por Agamben trazia consigo a regência e a expressão da existência da pessoa, depositando nela a semente indelével do impessoal, dos territórios desconhecidos que nos habitam desde sempre. Ali, deve haver dragões, diria eu, pensando nos antigos cartógrafos. Creio que ali existem os ninhos dos dragões, sutilmente inscritos em nossa impessoalidade, inapreensíveis às armadilhas montadas pela razão científica, pelas hermenêuticas positivistamente construídas. Restam, aos saberes consagrados pelos modernos, enquanto inquisidores, tornar o chamamento aos dragões em enunciações heréticas, contra-sensos, tolices pré-modernas.




A narrativa waratiana ocorre desde sempre no limiar, nas bordas do ato inaugural do Kaos, da des-ordem. O amor tomado pelo amor, manifestos para ecologias do desejo, por quem cantam as sereias,(...) Palavra inscrita amorosamente, emocionalmente. Assim a deixo solta no ar, tal pequena fada a bailar sob uma o inaudível sinfonia cósmica. Atento a tais movimentos, Agamben distancia-se falando com seus botões: “(...) a emoção é aquilo por meio do qual entramos em contato com o pré-individual. Emocionar-se significa sentir impessoal que está em nós, fazer experiência de Genius como angústia ou alegria, segurança ou tremor”. E conclui, despedindo-se e deixando um mote para nós, trovadores-narradores: “No limiar da zona de não-conhecimento, Eu deve abdicar de suas propriedades, deve comover-se. E a paixão é a corda estendida entre nós e Genius, sobre a qual caminha a vida funâmbula”.




Olhando a figura do Agamben voltar ao refugio seguro(?) das palavras escritas, da biblioteca, o contemplo movido por uma palavra mágica que um dia ouvi de um filósofo: ESPERANÇA. Não sei por que, talvez porque ela se coloque no limiar entre o dizível e o indizível, mas esta é outra narrativa. Deixo contigo, caro amigo, a condição de timoneiro desta nau que insiste em não aportar nos lugares nos lugares comuns da civilização a nós imposta pelos famas e apolíneos do mundo sublunar.

Albano Marcos Bastos Pepe

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