16 de mayo de 2011

Para começar a semana: “precisamos sentir que construímos juntos a nossa casa”!



“Começar: posso defini-lo, com toda a imprecisão de qualquer definição, como a necessidade de manter-se livre, pelo maior tempo possível, das decepções automatizadas, do prêt-a-porter de sentidos que logo virão. Começar é poder estar for a de uma Matrix. Recomeçar é poder conseguir sair da onda. Começar é poder ver as coisas pela primeira vez, ainda que se as tenha visto setenta mil vezes. Estar sempre virginalmente diante do mundo (apesar de que os famas nos agridam chamando-nos de imprevisíveis, de nunca contra com os adãos de olhar para um fazer esperado…). Começar é poder conservar o olhar de Adão, logo, imediatamente, no Segundo seguinte de haver mordido a maça… Começar é perguntar como se começa apesar de haver feito uma infinidade de vezes antes esse mesmo trabalho.  Isso vale para o amor ou qualquer outra produção de nutrientes; vale também para dotar de poesia qualquer rotina, para tudo o que sempre ameaça passar igual no correr dos dias. Perguntar-se como começar de forma constante é a possibilidade de poder sair de qualquer rotina. É a arte que esconde todo começo. É o primeiro segredo da arte de amar. A primeira borbulha de champagne capaz de poder transportar, em seu interior, algumas de minhas borboletas preferidas.
(…)
O encantador de tudo isso, ainda que soe contraditório, é que ninguém pode fazer tudo isso sozinho, precisa de algum outro, de um parceiro para dialogar… Todo começo esconde um outro. Todo começo meu deve ser encontrado na reserva selvagem de algum outro que funcione como meu inconsciente amoroso. A arte que esconde todo começo é a reserva selvagem do outro amoroso. Todo começo é gregário, nunca solitário. Precisamos sentir que construímos juntos nossa casa. O outro é o calor de nossa casa. Unicamente assim minha casa pode ser o calor dos outros. O calor de minha casa são as marcas dos calores dos outros que antigamente passaram e se hospedaram na onda. Meus velhos amores. Agora eles circulam em minha casa como uma casa muito particular de fantasmas que têm a missão de cuidar de minha ternura. São os cronópios que morreram em mim e que consideram que todavia não lhes chegou a hora de partir. Graças a eles estou vivo.”
(Luis Alberto Warat, no texto “Literasofia”, em “A procura surrealista pelos lugares do abandono do sentido e da reconstrução da subjetividade”)

          Pensando em algo que inspirasse este começo de semana, lembrei-me desse texto de Luis, do qual gosto muito e que fala sobre começar... e recomeçar... E dei-me conta de algo que não havia notado antes... Percebi que, nesse texto, parecia haver um recado... Talvez um recado escrito não por acaso, mas que, por mágica waratiana, fora escrito para ser percebido com atenção somente na data de hoje, em que se completam 05 meses da ida de Luis, de seu vôo a outras descobertas, talvez a encontrar novas purpurinas, y dragones y esperanzas...
De certo modo, ao deixar registrado que “precisamos sentir que construímos juntos a nossa casa”, que “Agora eles circulam em minha casa como uma casa muito particular de fantasmas que têm a missão de cuidar de minha ternura” e que “Graças a eles estou vivo”, nos deixou uma tarefa: a de seguirmos com seus projetos, de continuarmos reverberando suas ideias e, em especial, darmos continuidade a essa Casa, por ele fundada como o lugar da razão sensível.... Tudo isso num novo começo, um recomeço, que será sempre um novo olhar sobre o mesmo, um olhar “adânico” que dependerá do convívio de uns com os outros, num cuidadoso “entre-nós” que, por isso mesmo, nos ligará sempre a ele, Luis...

Então, vamos seguir "todos juntos" nessa Casa, com essas revoluções moleculares, rizomáticas, nessa cartografia de devires que será sempre nova, intersubjetiva, amorosa e sensível...

2 comentarios:

Maristela Elicker Dauve dijo...

me gusta!

Andreia Marreiro dijo...

Ele hoje me disse (novamente em uma conversa nova) que "as palavras são péssimas tradutoras dos sentimentos", quando falava da raridade chamada amor ...
Dizia que "para amar é preciso encontrar o outro em sua reserva selvagem; que as reservas selvagens exigem a leitura dos corpos e que quando fala de ler o corpo do outro não pensa em palavras, pensa numa leitura desde o sentimento, o entendimento sem porquês.

As palavras são péssimas tradutoras dos sentimentos, como eu concordo ... por outro lado, como ele me enche com suas palavras, como me entendes e como dialoga comigo no silêncio delas ... o entendimento sem porquês!
Meu preenchedor da palavra AMOR, tão vazia como poetizara Manoel de Barros, como sinto em não ter te abraçado, sem as palavras, com meu corpo, meu corpo físico ...
Quanta saudade do que não vivemos ...