21 de abril de 2011

Cortázar e o jazz





- Qual a importância do jazz?

- Creio que na maneira pela qual pode sair de si mesmo sem nunca deixar de ser jazz. Como uma árvore que abre seus galhos à direita, à esquerda, para cima, para baixo, permitindo todos os estilos, oferecendo todas as possibilidades, cada qual buscando o seu caminho. Desse modo de vista, está provada a riqueza infinita do jazz: a riqueza da criação espontânea, total.

Mas além disso, quando comecei a escutar jazz, descobri algo que desconhecia porque não era nada forte em teoria musical. Ao contrário do que acontece na música chamada clássica - expressão que detesto sem conseguir encontrar uma melhor -, na qual há uma partitura e um executando que a interpreta com mais ou menos talento, no jazz cada músico cria a sua obra a partir de um esboço, de um tema ou de alguns acordes fundamentais: ou seja, não há um intermediário, não existe a mediação e um intérprete.

Digo - e não sei se isso já foi dito - que o jazz é, ao lado da música da Índia, a música de todas as músicas. Ele atende à grande ambição do surrealismo na literatura, quer dizer, a escrita automática, a inspiração total, papel desempenhado no jazz pela improvisação, uma criação que não está submetida a um discurso lógico e preestabelecido, mas nasce sim das profundezas. Creio que isso permite estabelecer um paralelo entre o surrealismo e o jazz.
Como fui muito marcado pelo surrealismo em minha juventude e isso coincidiu com a descoberta do jazz, esta relação para mim sempre foi muito natural.


(extraído de Conversas com Cortázar, por Ernesto Gonzáles Bermejo. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2002, p. 89)

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