25 de febrero de 2011

Sobre o espírito da Casa Warat


ACEFALIA

Cortaram a cabeça de um certo senhor, mas como depois estourou uma greve e não puderam enterrá-lo, esse senhor teve que continuar vivendo sem cabeça e arranjar-se bem ou mal.

Em seguida ele notou que quatro dos cinco sentidos tinham ido embora com a cabeça. Dotado somente de tato, mas cheio de boa vontade, sentou-se num banco da Praça Lavalle e tocava uma por uma as folhas das árvores, tratando de distingui-las e dar os respectivos nomes. Assim, depois de vários dias, pôde ter a certeza de que havia juntado em seus joelhos uma folha de eucalipto, uma de plátano, uma de magnólia e uma pedrinha verde.

Quando o senhor percebeu que esta última era uma pedra verde, passou uns dias na maior perplexidade. Pedra era correto e possível, mas não verde. Para experimentar, imaginou que a pedra era vermelha, e no mesmo momento sentiu uma profunda repulsa, uma resistência a essa mentira flagrante de uma pedra vermelha absolutamente falsa, já que a pedra era completamente verde e em forma de disco, muito suave ao tato.

Quando percebeu que além do mais a pedra era suave, o senhor passou algum tempo tomado de grande surpresa. Depois optou pela alegria, o que sempre é preferível, pois se notava que à semelhança de determinados insetos que regeneram suas partes cortadas, era capaz de sentir diversamente. Estimulado pelo fato, abandonou o banco da praça e desceu a rua Libertad até a avenida de Mayo, onde como se sabe proliferam as frituras oriundas dos restaurantes espanhóis. Informado deste detalhe que lhe restituía um novo sentido, o senhor se encaminhou vagamente em direção ao leste ou ao oeste, pois disso não estava certo, e foi infatigável, esperando, de um momento a outro, ouvir alguma coisa, já que o ouvido era a única coisa que lhe faltava. De fato enxergava um céu pálido como o do amanhecer, tocava suas próprias mãos com dedos úmidos e unhas que lhe penetravam na pele, sentia o cheiro de seu suor, e um gosto de metal e de conhaque na boca. Só lhe faltava ouvir e justamente então ouviu, e foi como uma lembrança, porque o que ouvia era de novo as palavras do capelão do cárcere, palavras de conforto e de esperança, muito bonitas em si, pena que com certo ar de usadas, de ditas muitas vezes, de gastas à força de soar e ressoar. (Júlio Cortázar, em "Histórias de Cronópios e Famas").

Moral da história: perder a cabeça para redescobrir os sentidos...


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