14 de diciembre de 2009

Memorias de Albano



Lembrança e esquecimento14/12/09

Caminho ao lado do Canal de Setúbal até alcançar uma pequena ponte que o atravessa, ao lado desta, uma velha senhora protegida por uma sombrinha expõe suas chagas e pede esmolas afirmando que tais são os desígnios de deus e isto a conforta. Eu passo assim como outros passantes o fazem.

Solidariamente sinto uma profunda piedade por aquele ser envelhecido e solitário, penso nas vidas que se locomovem ao longo deste canal cujas águas sujas e barrentas passam assistindo indiferentemente o passar dos caminhantes e daqueles que sentam em suas bordas, às vezes para esmolar, às vezes para trocar beijos furtivos.Percebo o canal como um verdadeiro divisor de águas, à direita o imponente prédio hospitalar, cujos corredores, elevadores e enfermarias eu transito faz dias; à esquerda uma rua qualquer que deságua na praia de Boa Viagem, onde os passantes acontecem no seu calçadão, nas areias quentes e em suas águas tépidas e cristalinas.

Solitariamente assisto os movimentos dos corpos que se bronzeiam cultuando suas peles morenas e sensuais.A tudo assisto como se estivera frente a um enorme palco cênico, observando a confluência dos planos ora recepcionados pelos sentidos, ora voltados para a memória que se faz esquecimento e lembrança, aleatoriamente, sem nenhum controle de um “eu” que escolha a ordem dos aconteceres. A multidão de imagens que são processadas atravessa meu olhar imediato, minhas lembranças e meus esquecimentos.

Sou protagonista de cenas que acontecem e me arrastam para o fundo tal uma onda que impacta no quebra-mar e que joga os corpos à deriva. Aprendi que ao sermos capturados por uma onda, não devemos resistir, debater-nos, devemos sim deixar que o corpo seja levado pelas correntes marítimas, só assim ele emerge à tona. Caminho e deixo-me levar pelas correntes que emergem em mim.

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