14 de octubre de 2009


O amor e o experimentum linguae

Este texto foi pensado e escrito em homenagem a Luis Alberto Warat, em nome da sua teimosia em inscrever a palavra amorosa desde sempre nos seus atos, humanos, demasiadamente humanos. Amparado em seu caule rizomático, ele sempre deixa cair sementes nas quais deposita a esperança de que floresçam, não se importando com a aridez dos solos percorridos e a percorrer.
Albano Marcos Bastos Pêpe

Entre a voz (phoné), a linguagem (lógos) e a gramática (gramma) acontece um processo evolutivo que vem ocorrendo há aproximadamente cinqüenta mil anos com o homo sapiens sapiens. Afastando-se da rudeza e simplicidade da voz que é comum a todos os animais, seu ethos, sua oikia e sua polis têm o homem seus alicerces fundados. Sua linguagem nomeia os objetos físicos que o circundam, sejam artefatos produzidos, sejam os demais seres naturais, seja ele mesmo enquanto sujeito e objeto a ser capturado nas redes das enunciações. Tais redes formam cadeias de elementos lingüísticos que representam, isto mesmo, representam os objetos capturados pelos sentidos, tanto os naturais quanto os construídos. Estamos navegando em palavras que traduzem a imanência em constructos transcendentais e que, produzem sentidos convencionados históricamente às experiências corporais. Nunca dizemos o real, ele é o nous, a essência como diria Kant, ficamos tão somente frente ao seu pórtico. Aportamos tão somente no phainómenon, no mundo fenomênico. Condenação de uma espécie que ousou ir além da voz.
Em um momento concomitante e/ou subseqüente do surgimento da linguagem, partimos para o experimentum linguae, que nos é lembrado por Agamben, como “a infância, na qual os limites da linguagem não são buscados fora da linguagem, na direção de sua referência, mas de uma experiência da linguagem como tal, na sua pura autoreferencialidade”. Abandonando agora este autor, diria que tal movimento solto, livre das amarras dos referentes materiais, me permitem inscrever dentre outros o amor como um experimentum linguae. Warat, ao dar título a um de seus livros, assim o nomeia: O amor tomado pelo amor. Parece-me que tal inscrição o remete a uma experiência da linguagem diante do inefável, “aquilo que não se pode exprimir por palavras, o indizível”. Ou, em outro movimento: o campo da sigética, como o queria Heidegger ao defini-la “como a ciência ou a arte (de falar através) do silêncio”.
O silencio na linguagem não é o silencio do pensamento. Sendo para mim, a elaboração da mais delicada tessitura possível ao animal falante que logo somos. É o colocar-se voluntariamente numa encruzilhada que pode nos levar a uma floresta de palavras, a um emaranhado rizomático no qual, quase sempre podemos nos perder. Pois pensar o que o pensamento tão somente captura em seu experimentum linguae, nos faz tentar dizer o inefável, ou seja, romper o silêncio instituído na linguagem para que o pensamento nela se manifeste através da fala, do discurso.
Voltemos ao amor e à provocação do amor tomado pelo amor. Simploriamente poderíamos dizer que não passa de um tautologia, ou seja, uma “proposição que tem por sujeito e objeto um mesmo conceito”, mas não creio que seja assim. O amor só pode neste entendimento, ser pensado e falado a partir dele mesmo enquanto experiência da linguagem desprovida de uma parte objecti. Mas isto não é suficiente para esta palavra que está inscrita na linguagem humana enquanto memória ancestral que se refere aos estados d’alma descritos pelas mais diversas civilizações ao longo dos séculos. Mas como romper o silêncio que a linguagem se impõe para estabelecer seu universo autoreferencial? Mas também como não pensar o sentido inaugural de amor, senão no praeconcutare, no perguntar o mais íntimo do que somos, ou seja, enquanto construção autoreferencial?
Creio que o pensar o amor como um dos experimentum linguae por nós elaborado sem algo de material a predicar, é algo coerente e óbvio. No entanto, se a linguagem é a morada do ser, conforme certa tradição filosófica, este ser que é ente, parece-me, está condenado a expressar sensivelmente tudo o que pensa, inclusive os experimentos da linguagem. Dito isto, procuro não correr o risco de simplificar tal equação. Ao contrário, tento capturá-la em sua magnitude e complexidade.
Ao ver o conceito de amor repousar nas enunciações típicas do mundo da vida, defronto-me com uma verdadeira Torre de Babel, onde as gramáticas tornam-se ininteligíveis umas para as outras. Visto que, parece-me, falar do amor traz consigo um implícito: falar da experiência amorosa. Pois também o é referir-se ao “outro”, a quem afirmo amar ancorado na minha experiência da linguagem, enquanto fala e não enquanto discurso. Assim também este “outro” o fará e assim sucessivamente, ad infinitum. Eis a concretude da Torre de Babel, instituída e instituinte. Se este quadro tem sua gravidade e complexidade enquanto manifestação da fala, pensemos no que ocorre quando esta fala inscreve-se no plano do discurso, da argumentação com vistas aos procedimentos comunicacionais razoáveis! Eis o ápice da já conhecida Torre.

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