15 de junio de 2009

De homem a Zeus Segunda entrega


Hefesto, a criatividade rejeitada
Andréa Pereira Beheregaray
Hefesto, filho de Zeus e Hera, possui uma imperfeição física, e segundo uma das versões do mito, nasceu coxo e foi rejeitado pela mãe. Em outra versão, Zeus teria atirado Hefesto do monte Olimpo, após este ter tentado defender Hera durante uma briga entre ela e o marido, o que lhe causou o problema físico. As duas versões representam o filho rejeitado, símbolo da imperfeição.
Hefesto representa o arquétipo do inválido. Diferente do arquétipo da criança, que é fraca e destituída das qualidades do adulto, mas tem a possibilidade de crescer e se desenvolver, e do arquétipo da enfermidade, que é temporária, o arquétipo da invalidez é permanente[1], pois a deficiência é crônica e duradoura.
A figura de Hefesto é essencial para os operadores do Direito, pois, representa, ao mesmo tempo, a imperfeição e a criatividade banidas. Seu reconhecimento contrabalança com o narcisismo tão comum entre esses homens. Para Guggenbühl-Craig[2], o arquétipo da invalidez, por ser permanente, não permite uma fuga para fantasias de saúde e perfeição.
A quebra do narcisismo nesse grupo é de grande importância pelas transformações que poderia acarretar. Assunto muito debatido é a crença de que o Direito, e apenas este, poderia resolver os problemas sociais. Essa é uma crença do grupo, reforçada pela sociedade em geral, que ao se deparar com tais problemas tem, como primeiro movimento, exigir uma resposta da Lei. Exemplo comum é a dos crimes graves cometidos por adolescentes. Quando ocorrem, a primeira discussão que surge é sobre a maioridade penal. Não se cogita, nesse primeiro momento, nenhum outro tipo de resposta social. E, nesses casos, entram os dois aspectos de Hefesto, a imperfeição não assumida ¾ a incapacidade de reconhecer que sozinha não resolve de forma satisfatória problemas sociais complexos ¾ e a falta de criatividade, por colocar sempre em ação as mesmas e velhas respostas.
Hefesto é o deus da criatividade, o deus da Forja, o artífice serralheiro dos Olímpicos, em cujas forjas era usado o fogo dos vulcões. Seu nome, no sentido geral, é Fogo, e a ele os antigos dirigiam suas preces para que controlasse os vulcões. O vulcão simboliza a libido, e podemos conceituar Hefesto como um Deus que faz uso de sua energia, canalizando sua libido para o trabalho criativo.
Hefesto é o artesão inventivo do Olimpo, foi ele quem imperfeiço e que simboliza do. De qa criou o cetro e os raios de Zeus, a carruagem alada e flechas para Apolo e Ártemis, armas para Atena, entre tantas outras criações. Era o Deus mais humano, pela rejeição sofrida pelos pais, cresceu e se redimiu do seu narcisismo pelo abandono e pela dor. Foi o Deus traído e humilhado por Atena e seu amante Apolo.
A quebra do narcisismo, tão necessária para o desenvolvimento do homem, parece não ter ocorrido na maioria dos membros desse grupo. Ao integrar Hefesto ao Direito, será possível abandonar ideais de perfeição, imparcialidade na sentença, etc., pois o aspecto humano será reconhecido. Hefesto precisa ser integrado ao mundo do Direito, não apenas como imperfeição a ser assumida, mas como aspecto criativo a ser desenvolvido. Sem Hefesto estaremos presos a uma reprodução incessante de fórmulas ineficazes de funcionamento. Da reprodução de discursos inflados e narcisistas que só servem a esses homens. Na psique individual, o preço pago pela negação de Hefesto se traduz em sintomas físicos, por exemplo, cansaço, dores nas costas e depressão, pois o fato de se negar um aspecto psíquico não o elimina, faz apenas com que este aspecto encontre outros meios de se manifestar.
O que o mito de Zeus nos conta é que o potencial criativo e renovador só poderá se manifestar quando os homens que escolheram o Direito como caminho, possam assumir Hefesto, na sua imperfeição e fragilidade negadas. Descolar-se da identificação com o divino e retornar ao mundo dos homens, pois, ao que parece, o Direito permanece no Olimpo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.


BOLEN, Jean Shinoda. Os Deuses e o homem: uma nova psicologia da vida e dos amores masculinos. São Paulo: Paulus, 2002.
BURKE, Juliet S. & GREENE, Liz. O tarô mitológico. São Paulo: Arx, 2003.
CAROTENUTO, Aldo. Amar e trair - quase uma apologia da traição. São Paulo: Paulus, 1997.
____. Eros e Pathos: Amor e sofrimento. São Paulo:Ed.Paulus, 2005.
CARVALHO, Amilton Bueno. Direito alternativo em movimento. Niterói: Luam, 1999.
____. Magistratura e direito alternativo. 2.ed. Niterói: Luam, 1996.
____. O juiz e a jurisprudência- um desabafo critico. In: Garantias constitucionais e processo penal. In: Gilson Bonato (org). Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2002.
DOWNING, Christine. (org) Espelhos do Self: As imagens arquetipicas que moldam sua vida. São Paulo: Cultrix,1991.
GUIMARÃES, Ruth. Dicionário da mitologia grega. São Paulo: Cultrix.
HOLLIS, James. Rastreando os deuses: o lugar do mito na vida moderna. São Paulo: Paulus, 1998.
JUNG, Carl G. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.
LOPES JR, Aury. Introdução crítica ao processo penal: fundamentos da instrumentalidade constitucional. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2006.
WINSTON, Churchill. http://www.ociocriativo.com.br/frases/pesquisa.cgi. 23 fevereiro, 2007.

[1] DOWNING, Christine. (org) Espelhos do Self: As imagens arquetipicas que moldam sua vida. In: O inválido. Ob. Cit, p 241.
[2] DOWNING, Christine. (org) Espelhos do Self: As imagens arquetipicas que moldam sua vida In:O inválido. Ob. Cit. p,242.

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